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Como o sofrimento se apresenta para o analista? Como o analista consegue escutá-lo?

  • Foto do escritor: Alana Loiola
    Alana Loiola
  • 14 de jan. de 2025
  • 2 min de leitura

Não pretendo discorrer grandes respostas (prontas) para essas perguntas, mas ela me fez pensar sobre o início de uma análise/ou de um processo psicoterapêutico. Lembro-me bem quando e como cheguei em meu 2 analista, anos atrás, exatamente do que me queixava naquela época, o engraçado que até hoje retornamos para essa primeira sessão e as palavras iniciais carregadas de frustração e do que se tratava aquela queixa. Muitas elaborações aconteceram desde o início, porém, nesse brincar de retornar, nos ilustra como aquele sofrimento tinha outro nome, diferente de como era visto e tratado naquela época (por mim). O importante disso não é o retorno, mas se deparar que a queixa carrega história e contexto, carrega significados difíceis de digerir em certos momentos da vida, e esse tempo é uma descoberta.

Na minha clínica, não me (a)parece muito diferente, a apresentação do sofrimento inicial ganha outros nomes no decorrer do tempo, com um trabalho feito pela dupla – analista e analisando (mas acredito que sobretudo pelo analisando) –, um trabalho de localizar, demarcar e reconhecer aquilo que parecia um retrato borrado e inominável.

Existem sofrimentos que a palavra tropeça para dizer, tropeça, cai e se machuca, um risco eu diria, pois tendemos a dizer que tudo isso é a força da resistência. No entanto, podemos estar atentos aos sofrimentos que precisaram de muitas defesas, para fazer um paciente sobreviver psiquicamente.

O não-saber parece dar algum tipo de sustentação sensível e atenta ao analista, que precisa reconhecer junto com sua dupla as violências ou outros modos de trauma que o levaram até ali.

Estar, primordialmente, no lugar de narrar sua própria história, mesmo que as palavras ainda não tenham alcançado toda a compreensão e nomeação, “ser a/o outra/a” não é o lugar que devemos colocar nossos analisandos/pacientes.

Estamos preparados para escutar quem foi silenciado em seu próprio sofrimento?


“O racismo cotidiano refere-se a todo vocabulário, discursos, imagens, gestos, ações e olhares que colocam o sujeito negro e as Pessoas de Cor não só como ‘Outra/o’– a diferença contra a qual o sujeito branco é medido – mas também como Outridade, isto é, como a personificação dos aspectos reprimidos na sociedade branca”


“(...) estou inevitavelmente experienciando o racismo, pois estou sendo forçada a me tornar a personificação daquilo com o que o sujeito branco não quer ser reconhecido. Eu me torno a/o ‘Outra/o’ da branquitude, não o eu – e, portanto, a mim é negado o direito de existir como igual”


A obra de Kilomba é uma das primordiais para compreender esse trabalho íntimo de identificar violências racistas em nossos pacientes/ou mesmo em nós em nosso percurso. Um trabalho de reconhecimento de si e do outro.


Alana Loiola

Psicanalista e Psicóloga CRP 11/11842

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